14/11/2019

Saulo Stefanone Alle no O Globo – América do Sul – Instabilidade política – Alta do dólar – Investimentos no Brasil

Dólar sobe a R$ 4,18 com instabilidade na América do Sul, e analistas veem risco a investimentos no Brasil

Turbulência na região aumenta o risco, reduzindo a atração de capital, dizem especialistas

RIO e SÃO PAULO — O dólar comercial fechou em alta de 0,42% nesta quarta-feira, a R$ 4,1856, na segunda maior cotação já registrada, refletindo a preocupação dos investidores com a instabilidade política em países da América do Sul.

A Bolsa opera em queda de 0,93%. A crise na Bolívia e os protestos no Chile acenderam o sinal de alerta e, segundo especialistas, além de afetar o mercado financeiro, as turbulências podem dificultar a atração de investimentos produtivos para o Brasil.

Segundo o economista e professor dos MBAs da Fundação Getulio Vargas (FGV) Mauro Rochlin, a turbulência na região aumenta o risco para os investidores, tornando o investimento mais caro.

— Essas turbulências podem representar maior risco sim porque torna o investimento mais caro. O mercado financeiro olha a América Latina como um todo. Assim, quando países da região apresentam problemas é comum ver uma desvalorização dos ativos — destacou ele.

Segundo Rochlin, o caso mais grave é a renúncia do presidente da Bolívia, Evo Morales. A senadora de oposição Jeanine Áñez se declarou presidente interina da Bolívia na noite desta terça-feira e se comprometeu a tomar todas as medidas necessárias para pacificar o país. Na terça, o Senado boliviano teria uma sessão para discutir a sucessão de Evo Morales, que acabou não ocorrendo por falta de quórum.

— Os efeitos só não são mais graves porque a Bolívia não é uma economia tão expressiva. por isso, os efeitos são menores.

Segundo Saulo Stefanone Alle, especialista em Direito Internacional do Peixoto & Cury Advogados, as crises políticas na região sempre interferem na percepção de risco do investidor internacional.

— Há o receio de contaminação do movimento político. Por isso, é muito importante que o governo do Brasil envie mensagens comprometidas em demonstrar que a democracia é madura e que as alternâncias de poder não serão capazes de comprometer seus negócios. Tirar proveito político-eleitoral, com manifestações pouco refletidas e estratégicas, em momentos como esse, enfraquece todos os planos de longo prazo dos investidores — afirmou ele.

O coordenador do MBA de Relações Internacionais da FGV Oliver Stuenkel afirma que ao se deparar com a instabilidade política em países da América do Sul o investidor estrangeiro acaba adotando uma postura mais cautelosa e se pergunta se os protestos podem chegar ao Brasil.  Stuenkel afirma que como o Brasil está longe dos grandes centros financeiros, os investidores acabam tendo uma visão da região como um todo.

— Os investidores lembram apenas da região. E atualmente América Latina significa crise e instabilidade política. Além disso, acredito que o crescimento econômico da região será negativo. Então, o investidor espera para ver o que vai acontecer – afirma Stuenkel.

Desvalorização cambial

Para Alberto Ramos, economista-chefe para a América Latina no banco Goldman Sachs, em Nova York, ainda é cedo para que os números mostrem qualquer mudança de humor dos investidores com a região. Mas ele observa que os primeiros reflexos da situação de instabilidade em países como Chile, Argentina e Bolívia se refletem no câmbio.

O peso argentino desvalorizou quase 60% em relação ao dólar nos últimos dois meses; no Chile, o peso chileno foi ao seu menor valor em relação ao dólar chegando a 783,82 pesos/por dólar nova máxima histórica. E em casas de câmbio da capital Santiago, o dólar superou os 800 pesos, durante os dias de tumultos nas ruas.

— Assim como as moedas locais desses países se depreciam, sobe o prêmio de risco (que é o juro de um título público de um país em relação a outro investimento considerado mais seguro) com essas situações de instabilidade. Mas ainda é cedo para os números mostrarem redução de investimento direto ou saída de recursos. A eleição na Argentina foi há duas semanas, a crise no Chile tem quatro semanas. Acredito que só se a tensão social não baixar nesses países nos próximas semanas é que o capital começa a sair ou deixar de entrar — diz Ramos.

Ele, entretanto, afirma que a situação macroeconômica da região, independente dos distúrbios, pode afetar a percepção dos investidores para 2020 e 2021. E, nesse sentido, as instabilidades atuais podem ter imapcto negativo no crescimento econômico desses países nos próximos anos. Segundo Ramos, a região está vivendo um ciclo de crescimento econômico baixo e as expectativas futuras também são reduzidas A região não cresce acima de 2% desde 2016. E o PIB per capita dos países latino-americanos caiu 25% nos últimos anos, excluindo-se a Venezuela.

— Então temos situação de baixo crescimento da economia e da renda, expectativas ruins para o futuro no campo econômico, corrupção e impunidade e provisões inadequadas de bens públicos em infraestrutura, saúde e educação, além de uma insatisfação com as estruturas políticas tradicionais, com movimentos nas ruas. Tudo isso é um caldeirão de fatores que afeta a percepção futura de investimento na região — diz Ramos.

Abertura comercial

Para o Brasil, diz ele, o modelo reformista vai na direção correta, com a aprovação da reforma da Previdência, perspectiva de abertura comercial, privatizações, incentivo ao investimento. Mas os resultados não acontecem da noite para o dia. E, lembra o economista, por aqui as coisas andam mais lentamente do que se espera numa situação fiscal ruim e baixo crescimento econômico.

Já Luciano Rostagno, estrategista-chefe do banco japonês Mizuho no Brasil, avalia que o investidor tende a enxergar a região como um todo e investidores que não estão no Brasil ou não conhecem o país podem ficar fora ou ter mais cautela na alocação de recursos.

— Mas não dá para assumir um cenário catastrófico em relação ao investimento estrangeiro no Brasil, com impacto negativo nos planos do governo de levar adiante a agenda de privatizações ou concessões. A Argentina já está em crise econômica há algum tempo, mas o Brasil sempre se blindou — diz.

Fonte:https://oglobo.globo.com/economia/dolar-sobe-r-418-com-instabilidade-na-america-do-sul-analistas-veem-risco-investimentos-no-brasil-24079109