05/06/2019

Letícia Yumi Marques no Estadão – “Pensamento verde é apartidário”

Pensamento verde é apartidário

Letícia Yumi Marques*

05 de junho de 2019 | 17h20

O Dia Mundial do Meio Ambiente está sendo comemorado. O simbolismo da data é convite à reflexão do papel do pensamento verde na sociedade contemporânea, onde ganha mais destaque, às vezes de forma positiva, às vezes de forma negativa, a depender do viés político-ideológico do interlocutor.

É preciso ponderar a necessidade premente de o pensamento verde ser visto como é: um conjunto compartilhado de valores. E, ainda, mostrar que o ambientalismo e o pensamento verde são coisas diferentes.

Segundo Brian Doherty, professor de sociologia política na Universidade de Keele, os adeptos do pensamento verde (ou filosofia verde) têm em comum uma identidade.

O compartilhamento dessa identidade é importante para classificar alguém como parte do pensamento verde. Afinal, é a partir dela que se gera um tipo de solidariedade, que dará sustentação para ações coletivas.

Os “verdes” – prossegue o professor Doherty – são aqueles que compartilham uma certa visão de mundo e de estilo de vida e não apenas o público que visita parques aos finais de semana. Exemplos de valores compartilhados são a necessidade de mudança de estilo de vida para um modelo com menos consumo, com preferência por orgânicos e alimentos produzidos com respeito ao bem-estar animal e a não utilização do carro como modal de transporte.

Aspectos culturais podem influenciar os valores compartilhados pelo pensamento verde ao redor do planeta. Na Inglaterra, segundo o autor, um vegetariano seria visto como superior a uma pessoa que come carne. Na vizinha França o vegetarianismo não teria esse grau de importância para o pensamento verde.

Ou seja: embora compartilhem valores, há diferenças entre práticas culturais associadas à identidade, de forma que essa identidade não é absoluta. A identidade que torna alguém parte do pensamento verde é flexível, varia de acordo com aspectos culturais e, por isso mesmo, abarca pessoas de diferentes origens, com vieses político-partidários distintos e etnias distintas. O que se espera, em todos os cenários, é que o “verde” atue de forma coerente com os seus valores e com aquilo que professam.

Já o ambientalismo é um movimento social e, como tal, para Doherty, compartilha das características de outros movimentos sociais, que incluem a ação fora de instituições políticas, por meio de protestos; interações não institucionalizadas; e a rejeição ou desafio às formas dominantes de poder.

A característica mais marcante é o compartilhamento de uma visão de mundo – ou seja, de uma identidade – a partir de um posicionamento antagônico (“nós” e ‘eles’).

Talvez seja essa ênfase à polarização do movimento ambientalista que faça com que as questões ambientais estejam, no Brasil, sempre envolvidas em polêmicas e objeto de embate por forças políticas opostas.

Mas o ambientalismo, como movimento social, não opera, ao menos não totalmente, dentro de partidos políticos por duas razões: ou os partidos não estão abertos às suas ideias ou porque ser parte de uma instituição política não é adequado para mudanças.

Para Doherty, os ambientalistas são outsiders. E são outsiders porque protestam por direitos ou contra projetos específicos. A partir do momento em que essa pauta se perde, o movimento perde independência. A preocupação é o meio ambiente e não temas político-partidários.

O ambientalismo como movimento social outsider, tal como descrito por Doherty, é claramente identificado nos protestos do grupo Fridays For Future contra o aquecimento global e as mudanças climáticas, que vem ocorrendo em diversos países da União Europeia – Suécia, Alemanha, Itália, Noruega e Portugal.

Na Inglaterra, onde o grupo também realizou protestos, o parlamento declarou estado de ’emergência climática’ em todo o Reino Unido. A moção foi apresentada pelo Partido Trabalhista, mas aceita por unanimidade pelo Partido Conservador. A questão ambiental foi colocada acima das diferenças ideológico-partidárias.

O caminho mais eficaz para o ambientalismo no Brasil, a fim de haja avanços nas pautas que defende, talvez seja o distanciamento da polarização, com abandono (ou menos ênfase) no discurso antagônico.

Este seria o caminho para independência das reivindicações ambientais, que, atualmente, no Brasil – ao que tudo indica – se confundem com reivindicações partidárias.

Esse fenômeno é negativo para a preservação da natureza. Isso porque a polêmica afasta uma parte da sociedade da preocupação com o meio ambiente que a cerca. É preciso gerar empatia e não há empatia onde existe antagonismo.

O pensamento verde, como visto, não tem partido e não é, por si só, um movimento social. É uma filosofia; um conjunto de valores que prega a mudança para um estilo de vida mais sustentável.

É perfeitamente possível ser ‘verde’ sem ser parte do movimento social ambientalista e é igualmente possível ser ‘verde’ e ao mesmo tempo parte de um movimento social ambientalista outsider, defendendo uma pauta de forma apartidária.

A escolha pelo pensamento verde pressupõe a vontade de fazer uma mudança de estilo de vida. A escolha pela adesão ao movimento ambientalista pressupõe o ativismo pela causa. Essas escolhas estão à disposição de todas as pessoas, independentemente da crença político-partidária.

*Letícia Yumi Marques é advogada, consultora de Direito Ambiental em Peixoto & Cury Advogados e mestranda em Sustentabilidade pela USP

Fonte:https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/pensamento-verde-e-apartidario/